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Somos: causa e consequência.

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Naquele instante, uma parte do céu refletia o sol, a outra parte, mais a oeste, recebia pinceladas grossas de nuvens cinzentas, que pareciam não se mover com facilidade. Tive sorte de estar sob o grande clarão matutino a leste, a luz entrava pela janela, ofuscando o brilho das lâmpadas fluorescentes do escritório.

Ouvia ruídos diurnos misturados com Kiss the rain de Yiruma, preferindo eternamente estar imersa na doce melodia, sem me preocupar com os problemas corriqueiros dos que me cercavam, mas percebi impossível, fui á janela, e senti o calor solar penetrando em minha blusa, dando a nítida sensação de estar sendo transpassada por brasas, fechei os olhos e me coloquei no lugar daquele céu.

Não haveria nada que me impedisse de viajar nessa reflexão, pois sabia que eu e ele tínhamos muito em comum, parte de mim havia se infestado daquelas nuvens tempestuosas, enquanto a outra parte era habitada de calorosa luz, dentro de mim surgiam grandes batalhas, todas as manhãs, onde raras vezes vencia, e mesmo sendo vitoriosa, perdia minha vida e renascia no dia seguinte, passando pela dor de morte e nascimento toda vez que abria meus olhos e enxergava aquele teto tão familiar.

Lutava comigo mesma, pressionando o monstro que guardava no fundo dos meus olhos, sedento de ver o sofrimento de quem andava feliz, de não justificar eu estar triste e alguém ainda sorrir, a vontade de tomar o lugar do sol e fazer com que o mundo girasse em torno das minhas perspectivas, a criatura que não aceitava perder, que não conhecia o que era perdão, de um egocentrismo negro, essa, era a parte tempestuosa que gladiava com a razão constantemente em minha cabeça. E também era essa, que morria todas as manhãs pela mão de meu lado lívido.

Lado este, que prevalecia a pureza, a justiça introduzida pela moral dos homens, o auto-julgamento de uma herança bárbara, mas eficaz, onde procurei juntar tudo o que me pareceu bom, todas as lições construtivas que  a vida havia me dado, esse lado feria-se toda manhã, pois sempre me foi mais fácil, ficar acomodada com meu sofrimento, com as coisas erradas que andei fazendo - baixei meus olhos já embassados por lágrimas - e isso feria profundamente a parte que ainda tinha coerência dentro de mim.

Tornando a observar o céu, vi que os raios do grande astro já alcançavam as nuvens carregadas, em marcha lenta mas insistenteemente ia avançando, comecei a imaginar isso acontecendo dentro de mim, naquele dia, pelo resto de minha vida, iria ser diferente, além de ganhar a batalha, queria vencer a guerra, todas as vezes que perdi alguma luta, que não utilizei do perdão nem do amor, passaram como relâmpago em minha mente, a luz veio crescendo, o sol já ardia em minha pele, de olhos cerrados, por um minuto não ouvi nada que se passasse ao meu redor, só imaginei o sol entrando, aquecendo minha alma, meu lado ensolarado ganhou partido e avançava.

"Sou capaz de prevalecer", pensava; e isso me encorajou, às vezes os únicos que nos impedem de mudar somos nós mesmos. Repetindo isso, abri os olhos lentamente, dentro de mim, nem sinal de nuvens, era toda luz, lá fora, cheiro de terra molhada, as nuvens estavam quase dissipidas por completo, deixando gotas de chuva repousarem nos telhados e nas estradas, as lágrimas desceram, caindo no beiral da janela, já não havia mais dor, nem pelo que lutar, deixei que o amor me vencesse e a paz reinasse novamente.

Enquanto retornava à minha mesa repleta de problemas ( que havia deixado de tentar resolver há muito tempo) repetia : "Os únicos que nos impedem de mudar somos nós mesmos" Com a mesma garra que expelia as mudanças, retomei as rédias de minha vida.

2 comentários:

  1. Um bonito, corajoso texto. Quem nunca passou por essa tormenta onde tudo parece sofrível? Mas a bonança vem, e vem quando nos libertamos a nós mesmos.

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  2. Obrigada! E essa é a verdadeira liberdade não é?

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