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Gaiola


Olhou em volta a sala onde passara os últimos dois anos trabalhando, suspirou fundo, não era nem de longe o que ela queria, mas já era um paraíso poder ficar por ali entretendo a cabeça com números cavalares do que lembrar do "resto" da sua vida, pois não sobrava muito dela depois de ficar entre aquelas quatro pardes cinquenta e sete horas por semana. Do computador saia a mesma seleção de músicas  embebidas de nostalgia de sempre.

Mais uma breve pausa, fechou e apertou bem os olhos, meteu os dedos nos cabelos e os deixou ainda mais bagunçados, ela não queria lembrar dos problemas que ia deixando em cada esquina antes de ir para o trabalho, queria esquecer as rejeições, as cobranças, a morte do seu cachorro, seu medo de aranhas, suas notas vermelhas na faculdade, seus amigos falsos, as faturas do cartão de crédito, e os juros que estavam acumulando nelas, o fato de morar numa cidade que parecia ser longe de tudo, principalmente de sonhos realizados.

E o que mais lhe doía; a falta de amor, ou de quem se apaixonasse por ela, pois todos os dias ela via o amor fazer milagres nas pessoas, quando alguém se apaixonava, borboletas nasciam e a vida melhorava, tinha mais adrenalina, e não existiam problemas e hálito ruim, pelo menos era assim nos filmes e novelas, ou com a vizinha ao lado, sempre saía de casa com esperança de retornar como o coração preenchido, mas foram tantas decepções e dias voltando sozinha, que largou a mão de ser tão sonhadora.

Largou o teclado do computador pois as mãos já estavam trêmulas e os olhos fartos de lágrimas. Realmente não fazia bem lembrar da vida, e atrapalhava o rendimento no trabalho, realmente, preciso conter certos tipos de pensamentos por aqui, pensou, enquanto lavava o rosto e dava o ultimo soluço, para retornar para trás daquela mesa e simular uma vida que ela não queria ter, voltou pra dentro da gaiola, pois lá nada iria a surpreender, não teria vida, mas também não correria riscos.

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