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Se o amor te chamar para dançar: aceita.


Eu não queria ter ido, não me sentia bem naquele lugar cheio de arranjos imensos e vasos de cristal, não me sentia bem no vestido de seda, que caia como um carinho ao longo de meu corpo fora dos padrões, e que ondulava conforme meus passos cautelosos feitos sobre um salto doze daquele sapato que também não tinha nada a ver comigo. Mas fui. Porque tinha de ir, e eu nem sabia.

Procurei uma mesa que fosse próxima da saída, ao mesmo tempo que ficasse bem ao fundo do salão, odiava ser observada e gostaria mesmo de ter a opção de me esgueirar pela porta assim que o ambiente ficasse insuportável demais, odiava esses compromissos que ia porque deveria, seria falta de educação e de amizade, talvez eu estivesse dramatizando demais, Melina foi minha amiga por tantos anos, eu não poderia faltar a seu casamento, olhei no relógio antigo pendurado no meio do salão, eram nove da noite, e os convidados chegavam aos poucos da cerimônia religiosa enquanto eram recebidos pela família dos noivos, que deveriam estar quase chegando também.

A história deles foi bem comum, cresceram juntos e num belo dia "pá!" aconteceu. Uma sensação estranha percorreu meu corpo quando percebi que comigo isso nunca havia acontecido, mas logo recobrei os sentidos quando os noivos chegaram, ela estava radiante, os cumprimentei e desejei de coração toda felicidade possível, retornei ao meu abrigo, mas percebi a presença de um intruso em minha mesa, e quando estava quase perto, observei que se tratava de Jonathnan Johan, ou Jota Jota como gostávamos de chamar no colegial, mudado para Seattle no fim do ensino médio e voltara há alguns meses depois de se formar em medicina.

"Ora, ora, ora, Jota Jota ou devo chamá-lo de Doutor Jota Jota?" Quando disse isso, espantei a minha brincadeira, e o fato daquele sorriso que vinha dele me deixar tão a vontade, até para esse trocadilho sem graça.Quando ele se levantou da mesa pude ver o quanto estava mais alto, e que enxia bem o terno Armani, com um corpo que me deu curiosidade de saber como era, fui arrancada desses pensamentos quando ele se direcionou a mim, "Mas olhe só, meu chaveirinho da sorte! Andou crescendo, Merili Tharrara, quanto tempo faz desde o colegial?" sorri sem disfarçar minha admiração por ainda lembrar de como me chamava há tanto tempo, "O bastante para nós dois termos crescido um pouco mais?" sorrimos, eu já havia perdido a conta dos sorrisos que nasceram entre nós ali, coisa rara de acontecer ainda mais comigo, me deu um longo abraço, forte o suficiente para que eu sentisse seu cheiro, com um suspiro o libertei do abraço e nos sentamos na mesa.

E pude ver, que apesar da barba por fazer, e das leves marcas ao redor dos olhos acinzentados ele ainda era um menino, o mesmo de nove anos atrás, e que apesar de vir de um berço de ouro, como diria minha mãe, ele também não se sentia bem ali, concordamos em muitas coisas, inclusive quando ele me chamou para dançar, mesmo eu advertindo-o que tinha dois pés esquerdos, ele insistiu e me conduziu gentilmente até a pista, bem no momento em que e optaram por uma coletânea de músicas da década passada e justo a que eu amava: In ter air tonight, era Phill Collins que ia ditando como seria a velocidade de nossas passadas, e eu acabei esquecendo um pouco que estava sendo observada e relaxei os ombros, baixei a guarda, enquanto ele, como se estivesse conduzindo uma boneca de vidro, com todo o cuidado colocou a mão esquerda em minha cintura, foi a deixa para que eu colocasse a minha em sua outra mão livre e repousasse a outra em seus ombros largos.

Nem parecia que estávamos dançando, enquanto ele por causa do som alto tinha que chegar ao meu ouvido toda vez que tivesse de responder alguma pergunta minha ou me dizer algo, confesso que não achei ruim tanta aproximação, a voz dele também era música, quando as canções ficaram mais agitadas, resolvemos que era hora de nos sentarmos, e a conversa parecia não ter fim, tanto que me fez esquecer do meu plano de fuga se o lugar ficasse insuportável, mas ele o tornou tão encantador! Quem me vesse nunca iria dizer o quanto eu não me encaixava com aquele mundo, porque Jota Jota me fazia, me sentir em casa, com dezessete anos de novo... Os convidados aos poucos iam diminuindo e os noivos já haviam ido para a lua-de-mel, também resolvi que era hora de ir embora.

Com algum protesto de Jota Jota, mas precisei ir, no outro dia teria de embarcar para Londres em uma convenção, ele se ofereceu para me levar até meu apartamento, "Acho justo que me leve, já que me segurou aqui até as quatro da manhã e amanhã tenho um voo às nove!", ele soltou uma gargalhada:
"Como se para você tivesse sido algum sacrifício passar a noite com este excelente pé de valsa"
"É verdade..." Não concluí a frase, porque ele me abraçou como se fosse a ultima vez, e logo sua boca estava colada na minha. Não quis saber dos meus pudores, ou daquela sensação do início da festa, tudo aquilo desapareceu quando eu o tinha tão perto, e uma série de perguntas me passou pela cabeça, mas todas elas foram respondidas quando ele, sem me soltar, olhou nos meus olhos. E não paramos mais, encaixamos nossas agendas e me vi namorando vitrines de noivas e mandando convites e... Tendo a certeza de que o amor vem, meio sem avisar, mas ele vem, de onde você nem imagina, na hora que você menos pensa ele te convida para dançar.

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